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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
LEBRANÇAS DO DOUTOR SOCRATES
Há figuras que parecem destinadas a desferir permanentes socos da cara da hipocrisia, e o Doutor Sócrates, o mais brasileiro dos boleiros, é uma delas. Na segunda metade da década de 70, quando despontou no Botafogo de Ribeirão Preto, Magrão era uma ave rara no mundo das já pasteurizadas entrevistas de jogadores de futebol, amestrados para repetir os mesmos lugares comuns do “respeitamos o adversário” e “esperamos conseguir os três [então dois] pontos”. No Brasil da ditadura, Magrão era uma espécie de anúncio do que podia vir, lufada de ar fresco de uma democracia que, ainda hoje, permanece de realização incompleta.
A Democracia Corintiana talvez tenha sido o mais importante momento político da história do futebol brasileiro. Que me desculpem Olivetto e Travaglini, mas Magrão foi sua cabeça e alma. Sem ele, nada daquilo teria acontecido. Que me perdoem igualmente os são-paulinos, mas aquela vitória do Corinthians por 3 x 1, na final do Campeonato Paulista de 1982, foi um dos maiores atos de justiça dos deuses do futebol. Não porque a equipe alvinegra fosse superior à tricolor. Aliás, era justamente o contrário: o Corinthians tinha um gênio – o próprio Magrão –, um craque (Zenon) e um artilheiro em grande fase (Casagrande). O resto era puro amor à camisa alvinegra: Wladimir, Biro-Biro, Ataliba, o goleiro Solito. No papel, era pouco ante o São Paulo, que tinha certamente a melhor defesa do Brasil: Waldir Perez, Getúlio, Oscar, Dario Pereyra e Marinho Chagas. Do meio pra frente, mais dois craques, Zé Sérgio e Renato, além de Serginho Chulapa, que saiu queimado da Copa de 1982, mas que sempre foi um demônio em Campeonatos Paulistas. Era a Máquina Tricolor, bicampeã estadual de 1980-81, campeã brasileira de 1977, vice-campeã brasileira de 1981.
O jogo foi muito mais difícil que o 3 x 1 te levaria a crer. O primeiro tempo, violentíssimo, terminou em 0 x 0, o terceiro gol corintiano só saiu no finalzinho e o São Paulo teve um gol anulado quando a partida estava 1 x 1. O primeiro gol do Corinthians é uma espécie de alegoria da Democracia Corintiana. Aos trancos e barrancos, capotando, tropeçando, na base do puro amor, Biro-Biro sai na cara do gol e dribla Waldir Perez. Mas é o começo da jogada que importa aqui: Biro-Biro entrega a bola, na entrada da área, para um Sócrates acossado por dois dos maiores marcadores do Brasil, Oscar e Dario Pereyra. De costas para o gol, no meio de um tráfego absurdo, não havia o que fazer com a bola ali, a não ser a jogada que imortalizou Magrão: uma única cutucada de calcanhar e toda a defesa do São Paulo fica paralisada. Biro sozinho na cara do gol.
***
Em Londres, certa vez, saímos para tomar umas biritas, só os dois, únicos sobreviventes de uma cervejada oferecida pelo Festival de Literatura da cidade. Como já era mais de meia-noite, não encontramos nenhuma opção para tomar uma cerveja tranquilos, num bar. Só entrando em discoteca. Escolhemos uma com volume e seleção musical mais toleráveis e entramos. Lá pelas tantas, um garoto de não mais de 25 anos (sem idade, portanto, para tê-lo visto jogar), britânico com certeza, reconheceu Magrão e começou um longo discurso de amor pelo futebol do gênio. Enquanto eu fazia o possível para traduzir o português único, irrepetível do Magrão, com Beatles rolando na pista de dança, o garoto me olhou e perguntou: “você viaja com ele ao redor do mundo?”. Meio atônito, digo que não, que tenho meu próprio trabalho. Quando o garoto pergunta qual é meu trabalho, com aquela cara de “o que pode ser mais importante que trabalhar como tradutor de Sócrates?”, respondo que sou professor de literatura numa universidade dos EUA. Recebo de volta uma pergunta com tom de quem está dizendo a coisa mais óbvia do mundo: “por que você não larga isso e fica só de secretário dele?” O garoto, repito, não tinha mais de 25 anos.
Seria exagero eu dizer que sou amigo de Magrão, embora ele já tenha insistido com ênfase que mereço a honraria. Nas poucas vezes em que estive com ele, duas coisas me assombraram. A primeira foi a completa de ausência de hipocrisia, até mesmo daquela que rege as nossas banais interações do cotidiano. Não há tema proibido, não há meias palavras, não há aquele cálculo medíocre com que medimos o efeito do que dizemos. Um dos atletas mais políticos da história do esporte brasileiro, Magrão certamente não tem nada de “político” no sentido vulgar do termo: jamais esconde o que pensa – não tem papas na língua para dizer, por exemplo, o que acha sobre o ex-goleiro Leão – e, como tal, não serviria para se candidatar a nada, apesar de conhecer e entender a política melhor que 90% dos nossos representantes eleitos. O meu segundo choque diz um pouco sobre a absurda generosidade de Magrão. Ele não só atende com atenção qualquer pessoa que chegue querendo um autógrafo, uma foto, um bate-papo ou um abraço. Ele jamais faz o movimento de encerrar a conversa, por mais chato que seja o interlocutor. Caminhar com Magrão rumo a um compromisso de hora marcada é algo de enlouquecedor, porque é impossível saber quanto tempo você se atrasará.
O lembrete acerca da ojeriza de Magrão a qualquer hipocrisia tem relevância renovada agora, que ele enfrenta complicações de saúde obviamente relacionadas ao seu amor pela birita. Já vi jornalistas escrevendo que as “coisas podem se complicar” porque o tratamento “depende que Sócrates assuma que é alcoólatra”. Isso é de tremendo oportunismo, porque Magrão jamais escondeu que gosta mesmo de biritar. Que sua doença não sirva para que os moralistas de plantão afiem suas garras, porque foi o próprio gênio quem repetiu, já, um milhar de vezes: não se arrepende de nada, faria tudo de novo, viveria do jeito que tem vivido se lhe dessem uma segunda oportunidade.
Apoios a ele, por favor, sem moralismos e sem hipocrisia. Magrão é nosso Nietzsche, nosso Zaratustra.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
terça-feira, 22 de novembro de 2011
SEGUNDONA FUTEBO DE VERDADE
Vitória vence mas vai amargar mais um ano na segundona26 de novembro de 2011 | Arquivado em: Esportes | Escrito por: Redacao RBARubro-negro fez a sua parte dentro de campo, mas triunfo do Sport evitou o acesso do time baiano. Foto: Eduardo Martins / A Tarde / Futura Press O Vitória lutou, a torcida compareceu no estádio Coaracy da Mata, em Arapiraca, mas o sonho da Série A ficou para o ano que vem. O time baiano venceu o ASA fora de casa por 2 a 1, gols de Jorginho (contra) e Neto Baiano, mas foi tarde demais. O Sport venceu o Vila Nova no Serra Dourada e de nada adiantou o triunfo em Alagoas. O ASA se beneficiou da derrota do Icasa e a torcida comemorou mais um ano de permanência na Série B. A partida começou sob forte calor no interior alagoano e o time da casa soube tirar proveito do Fumeirão lotado e abriu o placar logo aos 2 minutos. Escanteio cobrado da esquerda por Raul e gol de cabeça de Leandro Cardoso, com falha da zaga Rubro-negra mais uma vez na bola aérea: 1 a 0. Aos sete minutos o zagueiro Jean até marcou de cabeça na grande área, mas o assistente marcou impedimento. O time baiano chegou mais uma vez com perigo aos 22 minutos, num chute forte de Nino Paraíba que passou perto da trave de Gilson. Aos 23 minutos, a melhor chance do Vitória na primeira etapa. Rildo invadiu a área driblou o marcador e ficou cara a cara com o goleiro, mas chutou bisonhamente por cima do gol, para desespero da torcida baiana presente no estádio.Mais atento no jogo, o time da casa perdeu duas chances incríveis de ampliar o marcador, graças a duas intervenções do goleiro Douglas, que salvou o Vitória. Aos 32 minutos, cabeçada de Raul na pequena área e defesa à queima roupa. No minuto seguinte, foi a vez do zagueiro Leandro driblar o goleiro e permitir a reação do camisa 1 Rubro-negro. Na segunda etapa, os jogadores do Vitória retardaram de propósito o reinício do jogo e o intervalo durou cerca de 30 minutos. A partida recomeçou com o atacante Rildo desperdiçando mais uma oportunidade aos três minutos, em cabeçada cruzada que foi para fora. Vágner Benazzi resolveu surpreender e mexeu na equipe colocando dois atacantes, Marcelo e Neto Baiano. Geovanni e Fábio Santos saíram de campo. A mudança do técnico surtiu efeito de forma incrível logo na primeira jogada. Bola alçada na área, Neto Baiano ajeitou para Marcelo que bageu cruzado. A bola bateu na trave, nas pernas de Jorginho e entrou no gol, 1 a 1, aos 11 minutos. Aos 22 minutos o atacante Rildo invadiu a área e bateu na trave direita de Gilson, que ainda tocou nela antes de sair. Aos 24 minutos, as chances do Vitória diminuiram bastante quando Charles Vágner foi expulso após se desentender numa dividida. Aos 26 minutos, Nino Paraíba salvou em cima da linha finalização de Alexsandro. Com um a mais em campo, o ASA ia perdendo chances e pagou caro. Aos 31 minutos, Neto Baiano trombou na zaga e conseguiu finalizar para virar o marcador, 2 a 1, aos 31 minutos. O ASA pressionou no final da partida, com a entrada do atacante Vitinha, mas parou no goleiro Douglas, que fazia belas defesas e terminou a Série B com uma boa atuação.
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